'Reação dos mercados é excessiva, mas Lula deve agir em três meses', diz Giannetti

CDPP

Economista que assessorou Marina Silva em três campanhas, diz que novo governo precisa se parecer ao Lula 1 em política fiscal

Valor

Escaldado em crises econômicas e campanhas eleitorais, o economista Eduardo Giannetti diz que tanto os agentes do mercado financeiro quanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeleito no domingo com mais de 64 milhões de votos, deverão calibrar suas atitudes para não atrair tempestades.

Giannetti, escritor de 69 anos que integra a Academia Brasileira de Letras (ABL), diz que a expectativa da Faria Lima sobre a política de cortes que viria a ser implementada por Flávio Bolsonaro (PL), o preferido dos investidores brasileiros, era baseada na percepção de uma “mentira funcional’’. Assessor econômico de três candidaturas da ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, Giannetti aprendeu com a experiência que não se detalha política fiscal com a bola em jogo. “Você tem que ficar no que o Nelson Rodrigues chamava de ‘o dorso liso das generalidades’”.

Para Giannetti, agora é a hora dessas definições, e Lula deveria repetir o modelo de seu primeiro governo, quando chegou a superávit primário de 4% do PIB. “A lição fundamental do Lula 1 é a seguinte: para fazer política social sustentável, tem que aceitar um pouco de sacrifício na entrada. Uma coisa não é contrária à outra. Se você aceitar uma correção, um freio de arrumação na entrada, é isso que vai abrir espaço para fazer política social generosa e de qualidade ao longo do mandato”, disse.

 A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ontem, por Zoom, ao Valor:

 Valor: Como o senhor avalia a reação do mercado financeiro à vitória do presidente Lula? Por que o mercado não se preparou para a hipótese de reeleição, mesmo as pesquisas dando empate técnico?

Eduardo Giannetti:  Eu avalio que está havendo uma reação excessiva a uma mudança de expectativas. Esse tipo de reação excessiva não é incomum, ele ocorre com razoável frequência. Na experiência eleitoral brasileira, aconteceu quando Lula ganhou pela primeira vez as eleições presidenciais, em 2002. Quando ele quase venceu no primeiro turno os mercados reagiram de maneira dramática. A Bolsa caiu 25%, o real derreteu, agravando um quadro de pressão inflacionário que já estava rodando em dois dígitos. Foi um movimento dramático. Quando o Lula ganhou no segundo turno, isso já estava no preço, basicamente. Mas, mesmo assim, teve impacto baixista.

Valor: Mas, em 2002, entre o primeiro e o segundo turnos, Lula fez uma série de encontros com empresários e banqueiros, publicou a Carta ao Povo Brasileiro. Mas ainda assim havia um imponderável, um desconhecimento sobre como seria Lula presidente, certo?

Giannetti: Havia um risco Lula. Ele assume, nomeia uma equipe muito técnica no Ministério da Fazenda, aumenta o superávit em relação ao que vinha sendo praticado no governo Fernando Henrique, o que não estava no radar de absolutamente ninguém. Nós chegamos a ter superávit primário da ordem de 4% do PIB durante alguns meses, alguns anos, no início do governo do primeiro mandato. O real se apreciou. Aquela inflação de dois dígitos era considerada [batalha] perdida, achava-se que o governo Lula jamais iria conseguir fazer isso, voltar para um sistema de metas cumpridas e, no entanto, voltou, com a apreciação cambial. E o Brasil obteve “investment grade” [grau de investimento das agências internacionais de classificação de risco]. Acho que a receita é essa: repetir o Lula 1.

Valor: Voltar ao modelo da gestão de Antonio Palocci na Fazenda?

Giannetti: Vamos precisar agora de uma PEC da transição às avessas. O erro desse primeiro mandato agora [Lula 3] é que exagerou no expansionismo fiscal no início do mandato. E depois tentou fazer o arcabouço fiscal, mas ele ficou muito fragilizado por uma série de expedientes aos quais o governo foi recorrendo para manter, pelo menos na aparência, algum tipo de contenção real das contas públicas. Vamos precisar agora fazer o caminho contrário, voltar para o Lula 1. E a lição fundamental do Lula 1 é a seguinte: para fazer política social sustentável, tem que aceitar um pouco de sacrifício na entrada. Uma coisa não é contrária a outra. Se você aceitar uma correção, um freio de arrumação na entrada, é isso que vai abrir espaço para fazer política social generosa e de qualidade ao longo do mandato. O que não pode é entrar com o afã de já pisar no acelerador.

 Valor: O presidente Lula foi reeleito basicamente por um movimento popular que tem muitas demandas sociais, de investimento em educação, escola integral, SUS. Como se dará o equilíbrio entre essas demandas e a questão fiscal?

Giannetti: A  mensagem que Lula tem que dar é a seguinte: “Eu não vou trair minhas promessas de campanha, mas preciso colocar a economia em ordem para poder atendê-las para valer”. É uma sequência. Ele tem que usar muito bem o início do mandato. Os primeiros três meses dão o tom do que será o mandato.  É o momento em que o Executivo tem capital político, em que ele pode liderar junto ao Congresso, que ainda está desarticulado.

Valor: O presidente Lula pisou no acelerador com medidas como aumento real do Bolsa Família?

Giannetti: O aumento do Bolsa Família foi a correção da inflação acumulada nos últimos anos. Não é uma coisa extravagante assim. É importante dar a ordem de magnitude do que a gente está falando. Estamos com um déficit primário de 0,5% a 1% do PIB, contando tudo, sem maquiagem. Para colocarmos a dívida pública numa trajetória de estabilidade ao longo do tempo, acredita-se que [seja necessário] alguma coisa em torno de 1,5% do PIB de superávit primário, o que abre espaço para uma boa redução do juro básico, caminhando para uma relação de estabilidade da dívida pública em relação ao PIB. Portanto, nós estamos falando de um delta de ajuste fiscal de 2 a 2,5% do PIB. Não é uma coisa inalcançável e completamente heroica. É exequível.

Valor: Quanto a essa reação exagerada do mercado nesta segunda-feira: ela é fruto de uma aposta errada, um erro de cálculo? Ou há também, embutida na reação, uma pressão pela escolha de um ministro da Fazenda que seja mais partidário dessa linha de ajuste fiscal, que seja um nome considerado mais confiável para o mercado?

Giannetti: A causa dessa mudança de humor do mercado financeiro é uma quebra de expectativas. Os grandes investidores estavam com posições compradas, imaginando uma vitória de Flávio Bolsonaro e algum tipo de ação mais contundente do lado fiscal. Essa expectativa foi quebrada. É um pouco conspiratório achar que o mercado financeiro vai coordenadamente agir para pressionar o governo a fazer alguma coisa. Agora, esse susto pode, sim, e deve até ter um efeito para que o governo preste atenção e não comprometa o mandato perdendo o pé da situação econômica. Mas não é uma coisa deliberada, é um efeito. O que será efetivamente feito é metade. A outra metade é administrar as expectativas do mercado financeiro. O mercado financeiro age muito com base no que ele imagina que será o futuro, as expectativas. Tão importante quanto o que é concretamente feito, que tem que ser crível, e aí a figura do ministro da Fazenda tem que ser escolhida com muito critério. Tão importante quanto esse lado, digamos, da objetividade, é o lado da subjetividade. É saber lidar e administrar corretamente as expectativas do mercado financeiro, não brigar com o mercado financeiro. A economia é uma espécie de meteorologia em que a previsão do tempo afeta o próprio tempo. Se as pessoas acreditam que vai vir uma tempestade, a tempestade acontece. Se as pessoas acreditam que o tempo vai ficar ótimo, o tempo vai melhorar, que o Sol vai sair, o tempo melhora, porque a expectativa tem uma força muito grande no comportamento, especialmente em mercados como Bolsas, mercados de câmbio, que são muito voláteis por natureza.

Valor: Ainda no tema da quebra de expectativa do mercado na vitória de Flávio Bolsonaro: durante a campanha, o candidato do PL falou de tesouraço, mas ele não deu muitos indícios concretos de qual seria a política de ajuste fiscal. Nos debates, negou cortes no SUS, negou corte no aumento real do salário mínimo e até das aposentadorias, que são consensuais nos mercados. Era expectativa de que Bolsonaro faria esses cortes ou wishful thinking?

Giannetti: A minha leitura é que o mercado financeiro entendia que na campanha eleitoral essa mentira era funcional, mas que era uma mentira. E que ele estava dizendo aquilo apenas uma finalidade instrumental de vencer uma eleição apertada.

Valor: Isso não é o que se chama estelionato eleitoral?

Giannetti: Exatamente.

Valor: Na Argentina, o ultradireitista Javier Milei ganhou a eleição presidencial de 2023 com uma motosserra nas mãos. Anunciou os cortes que depois fez. Por que no Brasil é diferente?

Giannetti: A situação da Argentina era muito mais crítica do que a nossa. Uma situação de UTI, e aqui não é. Eu participei intensamente de três campanhas eleitorais, como assessor econômico da Marina Silva em três campanhas. E aprendi uma coisa: em campanha eleitoral não se detalha política fiscal. Você tem que ficar no que o Nelson Rodrigues chamava o dorso liso das generalidades. Eu não tinha nenhuma expectativa de que durante essa campanha qualquer dos candidatos fosse específico e concreto em relação ao que realmente pretende fazer.

Valor: Como o projeto liberal, fiscalista ou de direita vai sobreviver e até avançar no Brasil sem o carisma e até a demagogia dos Bolsonaro, que foram o veículo para isso nos últimos anos?

Giannetti: O freio de arrumação fiscal que o Brasil precisa não tem nada a ver com fiscalismo ou com direita. É um passo necessário para recuperar a capacidade de políticas públicas consequentes do governo. E se ele [Lula] não der esse passo, vai meter os pés pelas mãos. Ele vai ver a economia se deteriorar e vai ter condições muito piores para fazer qualquer tipo de política social, eventualmente com a volta da inflação, que é a pior política social que se pode ter.

Valor: Quem viveu a época da hiperinflação sabe que isso significa.

Giannetti: Aí volta para aquela coisa difícil no Brasil, que é aceitar algum sacrifício no início para colher um benefício depois. Somos uma das culturas que mais resiste a esse tipo de troca intertemporal. Lula 1 fez. Aceitou um sacrifício na entrada para fazer um mandato maravilhoso, que eu acredito que foi o melhor momento da redemocratização no Brasil. O resultado foi espetacular. É verdade que o mundo ajudou o Brasil.

 Valor: Foi a época do boom das commodities. E agora, como está o cenário internacional?

Giannetti: O mundo hoje vai ajudar o Brasil. O  fim da hiperglobalização é uma excelente notícia para a economia brasileira. Isso nos permite repensar e reposicionar nossa inserção na economia mundial. O Brasil tem muito a ganhar com a busca que existe hoje no mundo por diversificação de fornecedores nas cadeias de produção, por segurança. Temos uma situação de segurança geopolítica muito especial, por dotação de recursos que são incomparáveis no mundo. O mundo vai precisar do Brasil, da oferta alimentar brasileira.  O Brasil tem minerais críticos, tem terras raras, tem oferta de energia renovável e sustentável, tem água doce, que é talvez o elemento mais decisivo hoje de geoeconomia, temos biodiversidade e temos uma condição boa de interlocução com os Estados Unidos, com a União Europeia e com a China. E podemos fazer com que a rivalidade entre esses grupos jogue a nosso favor. O mundo vai precisar de nós, assim como nós precisamos do mundo. Os investidores estrangeiros estão muito mais animados com o Brasil do que esse mercado financeiro da Faria Lima.

 Link da publicação.

As opiniões aqui expressas são do autor e não refletem necessariamente as do CDPP, tampouco as dos demais associados.

ESCRITO POR

CDPP

CDPPLer mais

Ouvir conteúdo

0 palavras · ~1 min de leitura

Publicações Recentes

Lula não deve dar guinada para melhor no seu quarto mandato, diz Alexandre Schwartsman

CDPP
·

'Será preciso dar uma guinada de 180° na economia', diz ex-diretor do Banco Central sobre novo governo de Lula

CDPP
·

Fazenda deve ter alguém favorável à mudança, diz Meirelles à CNN

CDPP
·

Carta ao presidente reeleito

Pedro Passos
·
Podcast

Podcast do CDPP