Disciplina em sala de aula

Samuel Pessôa

A empresa Plano CDE conduziu uma pesquisa etnográfica com alunos da rede pública de educação básica. Foram ouvidos 1.510 jovens das classes C, D e E, estratificados por região, gênero, idade e raça. O objetivo da pesquisa foi explorar percepções, hábitos e expectativas de alunos da escola pública sobre projeto de vida e seus sonhos. A pesquisa foi financiada pela Fundação Roberto Marinho.

Segundo quase 80% dos alunos, a bagunça é a principal barreira ao aprendizado. Questões de infraestrutura, de formatos de aula e postura do professor aparecem em níveis muito menores, e sempre como segunda resposta.

Estudo conduzido pela OCDE, a Pesquisa Internacional de Estudo e Aprendizado, Talis na sigla em inglês, identifica, entre outros fatores, as dificuldades em sala de aula dos professores. A última edição da Talis é de 2024.

Os professores são perguntados se enfrentam muito ruído perturbador e desordem. Para o Brasil, 57% dos professores respondem afirmativamente. O segundo pior país, de uma amostra de 49 países, foi o Chile, onde 37% dos professores reportaram dificuldades recorrentes com disciplina.

Em outros quesitos –se há perda de muito tempo até que os estudantes se aquietem, se muitos estudantes demoram ainda mais para iniciar suas atividades e se há muita perda de tempo com indisciplina e com interrupções ao longo da aula–, o Brasil é sempre o pior e muito distante do segundo colocado.

Segundo o estudo, os professores no Brasil perdem 21% do tempo disciplinando os alunos. Arábia Saudita e Turquia são levemente piores do que o Brasil, 23% e 21,5%, e a média da amostra perde 15% do tempo. Desde 2008 temos piorado: o tempo perdido em sala de aula, segundo o estudo, elevou-se de 18% para 21%.

O conjunto dos dados sugere que há um grave problema de indisciplina nas salas de aula brasileiras. A evidência casual sugere que há também grave problema de falta de respeito dos alunos pelos professores.

Perdemos ao longo das últimas décadas a ideia de que há uma hierarquia e de que os professores merecem respeito pela posição que ocupam na sociedade. Em particular, de que os pais têm obrigação de ensinar seus filhos a respeitarem os professores.

Recentemente, o ruidoso caso da professora de biologia da rede pública em São José dos Campos (SP), Michele Ramos –em que um aluno colocou vidro triturado em seu copo de água– gerou um projeto de lei do deputado Kim Kataguiri (União Brasil-SP) prevendo responsabilização e punição aos pais.

O projeto "institui mecanismos de responsabilização administrativa aos pais ou responsáveis legais por atos de indisciplina praticados por estudantes da educação básica em instituições de ensino públicas e privadas".

Essa é a melhor solução? Não tenho a menor ideia. Acho correto o princípio de responsabilização individual. E não parece exagero que os pais dos jovens respondam de alguma forma por indisciplina generalizada de seus filhos. Décadas de domínio de uma ideologia que torna tudo um problema social, coletivo, têm tornado nossa sociedade um poço de uma cultura de desresponsabilização individual.

O que eu tenho certeza é que, enquanto 80% dos alunos de nossas escolas apontarem como a principal dificuldade deles a bagunça em sala de aula, a taxa de crescimento da produtividade do trabalho não se elevará.

Há muitas evidências de que parte substantiva da produtividade do trabalho deve-se a habilidades cognitivas e socioemocionais embutidas nas pessoas.

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